Não dá para entender Córdoba sem entender o cuarteto. Esse gênero musical nascido na década de 1940 nos bailes populares dos bairros cordobeses é muito mais do que música: é identidade, é comunidade, é um jeito de viver a alegria que define o caráter cordobês. Se o tango é Buenos Aires, o cuarteto é Córdoba. E enquanto o tango tem sua melancolia, o cuarteto é pura celebração: um ritmo frenético dançado em casal com rodopios rápidos, passos sincronizados e uma energia impossível de resistir. Ir a um baile de cuarteto durante sua visita a Córdoba é uma experiência cultural tão válida quanto visitar a Manzana Jesuítica — e provavelmente mais memorável.
Dados Essenciais do Cuarteto
- Origem: Córdoba, década de 1940
- Patrimônio: Patrimônio Cultural Imaterial da Província
- Maior expoente: Carlos "La Mona" Jiménez (desde 1968)
- Onde ouvir: Sargento Cabral, Orfeo Superdomo, peñas e bares
- Quando: Sextas e sábados à noite, o ano todo
- Ingressos: A partir de ARS 3.000 (bailes) até ARS 15.000 (grandes shows)
Breve História do Cuarteto
O cuarteto nasceu em 1943 quando o músico Augusto Marzano formou o Cuarteto Característico Leo, um grupo de quatro músicos (piano, acordeão, violino e contrabaixo) que tocava em bailes de clubes de bairro e zonas rurais da província de Córdoba. O nome "cuarteto" vem dessa formação original de quatro integrantes. A música era alegre e dançante, com influências da tarantela italiana, do pasodoble espanhol e de ritmos centro-europeus trazidos pelos imigrantes.
Durante décadas, o cuarteto foi considerado música "de bairro" e visto com certo desdém pelas classes altas. Mas nos anos 70, a explosão de Carlos "La Mona" Jiménez (seu nome artístico desde os 13 anos) transformou o gênero para sempre. La Mona eletrificou o cuarteto, acrescentou percussão, sintetizadores e uma presença de palco arrebatadora que lotou estádios e transformou o gênero em fenômeno cultural de massa. Hoje, com mais de 70 anos, La Mona continua tocando semanalmente para multidões que o adoram com devoção religiosa.
La Mona Jiménez: O Rei do Cuarteto
Carlos Alberto Jiménez, conhecido universalmente como La Mona, é provavelmente o artista vivo mais querido de Córdoba. Com mais de 55 anos de carreira ininterrupta, mais de 70 discos lançados, milhares de shows e uma legião de seguidores fanáticos (os "moneros"), La Mona é para o cuarteto o que Gardel foi para o tango: seu embaixador definitivo. Seus shows são experiências multissensoriais em que a música, a dança, os fogos de artifício, o figurino extravagante e a interação com o público criam uma energia coletiva que precisa ser vivida para ser entendida.
Um show de La Mona no Sargento Cabral (seu templo habitual em Córdoba) é um ritual que começa à meia-noite e pode se estender até às 5 da manhã. O público, que vai de adolescentes a avós, canta cada música, dança sem parar e comemora cada gesto do artista. Canções como "Quién se ha tomado todo el vino", "La Balanza" e "Una lágrima" são hinos que todo cordobês sabe de cor. Para um turista, ir ver La Mona é mergulhar na cultura popular cordobesa da forma mais autêntica possível.
Onde Ouvir Cuarteto em Córdoba
Para além de La Mona, o ecossistema cuartetero cordobês é enorme. Artistas como Rodrigo (falecido em 2000, mas mais vivo do que nunca na memória popular), Ulises Bueno (irmão de Rodrigo), Damián Córdoba, Jean Carlos e La Konga lotam casas todos os fins de semana. Os bailes de cuarteto funcionam em locais como o Sargento Cabral, o Orfeo Superdomo e clubes de bairro espalhados pela cidade. Os preços de entrada são acessíveis (ARS 3.000-15.000) e a experiência é genuinamente cordobesa.
Para quem procura uma experiência mais relaxada, as peñas e bares do bairro Güemes costumam tocar cuarteto ao vivo nos fins de semana, em um formato mais intimista e acessível. Algumas cervejarias artesanais também organizam noites de cuarteto com bandas emergentes. E no rádio cordobês, o cuarteto toca o dia inteiro: sintonizando qualquer FM local você vai ouvir o ritmo que define esta cidade.
O Cuarteto como Patrimônio Cultural
Em 2013, o cuarteto foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Província de Córdoba, um reconhecimento há muito esperado que validou o que os cordobeses sempre souberam: que esse gênero musical nascido nos clubes de bairro é uma expressão artística tão valiosa quanto qualquer outra. O Paseo del Cuarteto no centro de Córdoba (sobre a rua San Jerónimo) presta homenagem aos artistas mais importantes do gênero com placas no chão ao estilo da Calçada da Fama de Hollywood. Há um projeto para criar um Museu do Cuarteto que documente a história completa do gênero, desde as origens até os dias atuais.